Como organizar a morte da minha mãe me fez virar doula do fim de vida
A doula do fim de vida oferece suporte não clínico a quem está morrendo e a quem vai ficar. No Brasil, a profissão ainda não tem regulamentação, mas um projeto de lei apresentado em abril de 2026 pretende mudar isso. A advogada Letícia Corrêa é doula da morte desde 2022. Em depoimento ao g1, ela conta por quê. Letícia Corrêa, doula da morte, e a mãe, Luzia. Arquivo Pessoal "Quando os exames pré-operatórios apontaram um nódulo no pâncreas, eu disse à minha mãe: ‘que bom, descobriu antes de operar. Aproveita e tira tudo de uma vez’. Não tinha ideia do que estava dizendo. Minha mãe havia sido diagnosticada meses antes com câncer de ovário. O protocolo incluía cirurgia para retirada do aparelho reprodutor e meses de quimioterapia. Depois, vida normal. A cirurgia foi feita. O peritônio, varrido. Baço, linfonodos e o nódulo do pâncreas, ressecados e biopsiados. Quando o cirurgião oncológico nos chamou ao consultório para apresentar o resultado do exame imuno-histoquímico, disse que havia sido surpreendido. Aquele nódulo no pâncreas não era uma metástase. Era o câncer primário. As metástases estavam no ovário. O cenário, então, se transformou. De um tratamento curativo, passamos a lidar com um tratamento paliativo. ------ Eu estava na metade da faculdade de Direito quando meu pai precisou de um transplante de fígado. Aprendi cedo o que significa enfrentar o sistema de saúde com alguém que se ama do outro lado —a espera, o processo judicial para medicamentos de alto custo, a mudança de cidade enquanto o órgão não chega. Quando me formei, minha psicóloga me perguntou se eu já tinha ouvido falar em direito médico. Pesquisei e entendi que não, nunca tinha ouvido falar, mas era exatamente o que eu estava fazendo com meu pai. Decidi, como advogada, seguir por esse caminho. Foram anos de demandas contra planos de saúde, acesso a medicamentos, leitos de UTI. Eu conhecia hospitais por dentro. Sabia como pedir, como pressionar, como esperar. Ao menos, eu achava que sabia. Até...
Original source: G1 Brazil